GLOBÁLIA

Um universo em expansão sob a troika de valores: Liberdade, Segurança e Prosperidade. Tudo no Dia de Camões

segunda-feira, junho 12, 2006

Globália - entrevista com Jean-Christophe Rufin



Globália o tal inimigo a abater, dado que parece ser uma construção voltada contra os homens. Um edifício que não obstante se alicerçar na Liberdade acaba por a esmagar. Por isso, não sabemos bem o que é a Globália... Se um monstro político, económico e social dos novos tempos (?); se uma escapatória para a libertação... Portanto, se não sabes, pergunta; se não te respondem, procura; se não encontrares, inventa; verás que descobres...


Como nasceu esta fábula social?

A intenção era a de, um pouco à semelhança de George Orwell, escrever sobre que género de ameaça nos está destinada. O mundo de Orwell era o do estalinismo do pós- -guerra e foi a partir daí que ele ficcionou o futuro em 1984 [escrito em 1949]. Nós vivemos uma situação diferente, numa sociedade onde a liberdade está fixada como princípio fundamental, mas onde essa liberdade pode provocar uma deriva. Por outro lado, interessava-me ver em que medida a técnica do romance histórico, que utilizei em livros sobre o passado, podia ser aplicada no romance do futuro. Há uma intenção filosófica e política e uma intenção formal: fazer uma transposição do romance histórico para um romance sobre o futuro.

Falou na deriva por vezes associada à liberdade. A alienação pode estar para a democracia como a interdição está para outros regimes? É um dos seus paradoxos?

Sim. Em Globália todos os dias há uma festa. É um modo de desviar a atenção, a agressividade e o interesse para coisas que não têm importância. Da mesma maneira há um desviar de atenção das causas do medo. O resultado é um mundo de alienados.

A Globália fica num espaço reconhecível, num tempo determinado, mas que não corresponde ao nosso calendário. Este ano 27 é num tempo muito distante do nosso?

Este não é um livro de ficção científica, sobre um futuro distante. As personagens não têm orelhas verdes. Não queria que os seres humanos se transformassem. Queria apenas pôr uma lupa sobre o presente para aumentar uma série de coisas. Levou a uma fábula social sobre um futuro próximo, que é já ali. É muito difícil a ideia de romance político por antecipação. A começar pelo público, que se afasta ante a hipótese de ser ficção científica.

Toca preocupações actuais: baixa taxa de natalidade, medo de envelhecer, de morrer. Há muitos medos.

Neste momento, em França, o protesto dos jovens contra o contrato de primeiro emprego é a expressão desse medo. Numa sociedade em que se apregoa os valores da juventude e da vida longa, os verdadeiros jovens, não têm lugar. Não podem entrar. Os jovens na Globália têm 60 anos. É a contradição entre os vários tipos de direitos. O direito a uma vida longa, activa, entra em contradição com o direito de um jovem ao seu lugar na sociedade.

O seu alvo é a democracia?

Não é uma crítica de princípio à democracia. Não sou contra a democracia, que isso fique claro. Mas quero falar da sua complexidade, que há coisas muito perigosas e é preciso a mesma vigilância em relação à democracia do que em relação a qualquer outro regime político. Ela também pode ser perigosa. Estava a escrever o livro no momento em que os americanos se preparavam para intervir no Iraque e, em nome da democracia, disseram muitas falsidades. A democracia por si só não nos defende dos excessos de poder. Também tem os seus perigos.

Enquanto escritor, ficciona a realidade, como político intervém na realidade...

Não me vejo a fazer as duas ao mesmo tempo. Uso a realidade como uma espécie de bateria, de carga.De percepção, de retratos, de paisagens, de ideias. Depois, passo à escrita.

Como vê a escrita: uma forma inovadora de contar uma história?

Sou médico e sentia-me um passageiro clandestino na literatura. Comecei pelos ensaios porque me parecia menos comprometedor. Também os via como uma forma literária. Quando os escrevia, pensava em Tocqueville, em Maquiavel. Agora, o ensaio são só as ideias. Achava o romance mais ambíguo, rico. Quando me iniciei no romance, a grande surpresa foi o prazer que senti. Adoro contar histórias e aplico-me a encontrar uma forma de as escrever. Como vê, falo bastante, disperso-me, disparo em todos os sentidos e tenho necessidade de me disciplinar de modo a concentrar-me no essencial.

Disse que quando escrevia ensaios políticos pensava em Tocqueville e Maquiavel. E quando escreve romance, pensa em quem?

Situo-me na tradição do romance clássico francês. Dumas, Flaubert, Balzac... Hoje há uma espécie de snobismo em França em que o romancista quer inovar todos os dias, rompendo com a tradição. Eu não quero romper com a tradição. Quero contar uma história de
forma simples - espero que com qualidade -, mas não procuro revolucionar a forma do romance.

Neste tempo futuro em que se situa a Globália, haverá espaço para o romance?

Há um lugar central. A defesa da leitura e em particular da ficção é qualquer coisa de essencial, porque é o único verdadeiro acesso individual à expressão. A única liberdade directa é escrever. A possibilidade de escrever, de escrever histórias, é verdadeiramente uma liberdade individual. O cinema já não é assim. Depende do meio, o controlo político, social. O livro é o último meio revolucionário ao alcance de todos.

"A democracia também pode ser muito perigosa"

Em português com sotaque do Brasil, o escritor francês confessou sentir-se um aluno em vésperas das férias grandes. Entre as Maurícias e Lisboa, com uma paragem em Paris, chega ao fim de um mês de viagens de avião. É tempo de voltar ao novo romance, cuja escrita foi interrompida há três anos, quando assumiu a presidência da ONG Action Contre la Faim

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